Nada do que reclamar.


Um dia meu filho era autista, no outro tinha alergia à proteína do leite da vaca.
Um dia meu filho brincava, dançava, fazia carinhos e olhava para mim quando eu o chamava.
Eu sonhei muitas coisas para ele.
Queria ensiná-lo a empinar pipa, jogar bolinhas e gude e comprar aquela sandália com o tema favorito dele pq ele faz a maior birra na loja e reclamar do preço.
Queria que ele fosse para a escola e me respondesse o que a Ana Laura respondeu no seu primeiro dia de aula: "não quero falar sobre esse assunto".
Queria não ter o medo que eu tenho.
Queria não pensar que meu filho hoje é uma criança doce e tem a mim, mas que no 'amanhã' ele será um homem e posso não mais estar aqui e que talvez precise de cuidados, quem os dará?
Queria muitas coisas, queria uma vida como a de qualquer outra pessoa.
E eu, que sempre quis ter o controle de tudo na minha vida, me vejo de mãos atadas, dependendo da sorte, do destino e das pessoas, porque não?
Dói, dói de verdade, todos os dias.
Mas entendi que eu não posso viver, nem sequer levar minha vida para frente se ficar pensando nessas coisas.
Minha viagem é diária. Não posso pagar um pacote antecipado.
Não!
Cada dia eu vou para um lugar e pago minha viagem em suaves prestações.
Muitas vezes as parcelas são dolorosas, mas na maioria das vezes são gratificantes.
Hoje é um dia muito importante em nossas vidas.
Ahhh não sei se conseguirei encontrar palavras para explicar o quanto tudo isso significa para nós.
Descobrir que meu filho era alérgico ao leite de vaca foi fácil.
Difícil foi encontrar algum médico que acreditasse em mim.
Não fosse minha amiga querida Michely e tantas outras a me ajudarem, eu não teria chegado onde cheguei.
Meu filho vivia com diarreia, doente com pneumonias, sinusites, otites, amigdalites e tudo o q podem imaginar.
Ele definhava a cada dia. Magro, sofrido, choroso, não existia vontade de viver nos olhos dele.
Ele não dormia noites e mais noites, nós definhávamos junto tbm.
Um belo dia, chegamos a um lugar onde médicos poderiam nos ajudar e a história foi a mesma: "ele não tem perfil, não tem idade para ter APLV*."
Chorei, me descontrolei e implorei ajuda.
Saí de lá com uma receita de um leite, um início.
Não foi fácil.
Encontrar o leite certo, encontrar o alimento que não continha leite certo, trabalhar, ter uma vida normal, cumprir o papel de mãe de dois filhos, esposa, profissional, louca, destrambelhada que sou.
Tive a ajuda de muita, muita gente, citar nomes seria tremenda covardia hoje.
Lutei, como guerreira, vibrei com cada cocô mais consistente na fralda.
Chorei, desanimei.
Teve dias de eu perguntar a Deus, pq?
Daí, era dia de outra consulta lá.
Crianças que só se alimentam por sondas, crianças sofridas, crianças bem cuidadas, crianças abandonadass, mas em sua maioria, crianças com mães dedicadas.
Reclamar do que?
Muitas vezes senti vergonha pelos olhares meio inquisitivos das pessoas lá  me perguntando: " o que essa criança que corre, pula e brinca faz aqui?"
Felizmente sou vacinada contra olhares e Deus me privilegiou em ter respostas certas nas horas certas e às vezes, leiam bem, somente às vezes, tenho freios na língua.
Vendo tudo isso, saia de lá cheia de coragem para enfrentar mais uma vez as orientações das nutricionistas.
Reclamar do que?
Levamos um ano, de verdade, um ano para alcançar a estabilidade q nada mais era do que acabar com as diarreia.
Vocês não fazem ideia e espero que nunca façam do que é sair de casa e levar 10 fraldas e ter medo de faltar, pois já aconteceu isso, muitas vezes.
Não foi fácil nos adaptar a tudo isso, mas conseguimos.
Eu, o Ro e a Laura nos dedicamos com afinco, com muito amor e determinação.
A rotina do "Sem leite" foi seguida plenamente dentro de nossas possibilidades, claro e a estabilidade demorou, mas chegou.
Mas, depois do tumulto, nos foi dito que assim que Art atingisse o equilíbrio entre pesoXaltura, iria iniciar outra etapa: a reintrodução do leite de vaca.
Como eu TIVE MEDO!!
Mas admito, meu bolso sonhou com essa possibilidade, pois encaixar formula especial  em nosso orçamento foi complicado.
Há um tempo eu esperava isso.
Hoje chegou o grande dia.
Artur atingiu a meta dentro do padrão normal entre pesoXaltura depois de exatos 2 anos.
Foi muito trabalhoso, foi uma luta muito grande e ouvir em outras palavras que nós vencemos foi demais.
Sabe, eu precisava chorar.
Eu consegui!!
Algo que em dia nenhum eu sequer almejei.
Nunca imaginei q nada disso aconteceria comigo, aliás, na minha mente louca, para mim, tomar fórmula especial seria para a vida inteira, de tão resignada q para algumas coisas eu sou.
Não foi fácil comprar o leite, não foi fácil ler todos os rótulos dos alimentos, não foi fácil mudar toda uma rotina de uma casa, ainda q para melhor, não, não foi nada fácil nos adaptar a tantas mudanças.
Mas ainda assim, depois de tudo que vimos, depois de tudo que enfrentei, olhei para as crianças de lá e pensei: Não foi nada, seria um absurdo reclamar!
Passei um dia numa UTI neo, meu filho se desenvolveu normalmente e tirando o autismo que é uma Síndrome e não uma doença, meu filho nunca teve nada grave.
Agradeço a Deus por tê-lo bem, peço-lhe força para encarar as realidades que o autismo oferece em seu pacote recheado de amor e carinhos gostosos, mas agradeço mto a Deus pela força que ele me deu em reconhecer que se eu olhar em volta, meu filho não tem nada. E eu??
Não fiz nada mais do que meu dever de mãe.

Hoje é um dia histórico, Art não toma mais Isomil Soja 2, Art tomará Leite com baixo teor de lactose.
Uma lata de R$30,00 por uma caixinha de R$3,00.
Mas isso pouco importa.
Art logo poderá tomar sorvete e saborear tantas outras coisas além do carinho, amor e dedicação da mamãe, não pq não seja bom, mas simplesmente pq não é para sempre e a vida, principalmente a minha, nos ensinou a provar outros sabores.


Beijos


*APLV = Alergia à Proteína do Leite da Vaca.
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2 comentários:

Juliana Firmino on 19 de fevereiro de 2013 10:37 disse...

Que alegria Beta!
Art a vitória é sua meu amorzinho

Francine Barrionuevo on 19 de fevereiro de 2013 13:07 disse...

Imagino a sua alegria...
Mas, não consigo imaginar a sua dor...aprendo muito com vc.
bjs

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