Lição de casa: enfrentar traumas


Ai gente, não adianta fugir, né?
Todo mundo por mais que nem perceba tem seu trauma.
Eu tenho muitos, mas também sempre existe aquele trauma que a vida nos faz encontrar e enfrentar.
Eu tenho medo de ligação na madrugada.
Medo de quando chamam no portão e não estou esperando ninguém.
Tenho medo de quando meu marido está trabalhando e liga com um tom de voz diferente do normal.
Tenho medo de escuro, medo de tomar remédio.....
Eu tenho medo de tudo!!!
E eu tbm tenho medo de escola para crianças.
Ah, tenho mesmo.
Antes eu achava q na escola existiam pessoas comprometidas com a verdadeira ética da educação, antes eu acreditava que pessoas q escolhiam trabalhar em escolas tinham escolhido isso por identificar em si um amor, um dom, mas que nada, hoje nem tudo é assim.
Hj temos o desemprego, a concorrência profissional acirrada, hoje temos as pessoas que buscam oportunidades.
E na boa? Isso não combina com educação e crianças. =/
Isso é mto triste e pode causar sérias consequências na vida de alguém.
Um dia encontrei uma pessoa que eu até já conhecia.
Ela me disse com outras palavras o seguinte:
"- Seu filho tem problemas, então ele é um problema para mim. Minha escola não precisa e nem pode ter problemas. Não volte mais!"
Naquele momento não foi isso que eu entendi, eu apenas ouvi as coisas absurdas q ela me disse e fui embora, resolver minha vida, cuidar do meu 'problema'.
Nunca mais as coisas foram iguais, nunca mais minha vida teve um sentido claro, nunca mais consegui levar meu filho para a escola.
Nunca mais, nunca mais mesmo.
Nunca mais eu vi com bons olhos dar tchau para meu filho num portão cheio de crianças. Nunca mais vi uma festa num Playground, nunca mais achei mochilas fofas e NUNCA, NUNCA mesmo comprei uma mochila para meu filho ir à escola

Qse 4 anos depois eu decidi mudar.
Ser distante, não fazer uma parceria com a escola não é o caminho mais viável.
Então hoje, respirei fundo, falei para meu chefe q ia na escola do meu filho conversar com a diretora nova.
No caminho eu pensava tantas coisas.
Como ela é?
O que ela vai achar de mim?
Será que vai me achar uma neurótica?
Será que conseguirei transmitir as informações de forma não complicada?
Será que vai rolar empatia?
Será? Será? Será?
Então cheguei à porta da escola.
Abri o portão e pedi para falar com a diretora.
Rapidamente ela apareceu de outro lado.
Apresentei-me como mãe do Artur, aluno do pré II e com o famoso rótulo: autista.
Perguntei se ela já conhecia o caso dele e ela foi honesta em dizer que não.
Entrei na sala e existiam mais duas mulheres, me apresentei mais uma vez e fui explicando e contando como Artur era, suas necessidades e relatando o que houve no ano passado. TUDO!!
Falei sobre não ter estagiária, sobre a reunião de pais onde a professora acalmou os pais dizendo que na sala tinha uma criança especial, mas que eles poderiam ficar tranquilos já q ela era calma e não mordia ninguém (oi? E se mordesse?)
Falei sobre a festa junina tbm e falei sobre a Supervisão saber desse ocorrido sem que eu mesma dissesse.
Elas se olhavam entre si um tanto horrorizadas, mas eu fazia questão de contar os detalhes para q eu não me passasse pela mãe louca e exagerada que costumamos ser rotuladas.
Enfim, ficou falei que quero uma parceria.
Não quero televisão e nem indenizações, não quero nada, só quero um lugar descente para meu filho estudar, aprender o que ele puder.
Deixei claro que somos pais conscientes do filho que temos, que não queremos um MILAGRE escolar.
Me prontifiquei a esclarecer qualquer dúvida, falei que papai é mais presente diariamente, mas que nada me impede de fugir do trabalho se preciso.
Falei mto sobre a alimentação a perda de peso, sobre a dor q senti ao saber q meu filho emagrecia pq não sabe falar e pedir comida.
Consegui fazer e falar tudo o que me propus.
Passei dias, meses pensando em como seria e sinceramente?
Dei graças a Deus a escola ter renovado a diretora e coordenadora.
Não é algo pessoal, é apenas uma forma de eu sentir q posso ter um começo.
Esse ano eu começo a ver a vida escolar do meu filho.
Esse ano eu falei que quero ser chamada para as reuniões escolares e participar de todas.
Esse ano eu quero sentir q meu filho é uma criança com dificuldades e não uma criança q por não dar trabalho possa ficar isolada num canto.
Afinal, se for para deixá-lo só, num canto, melhor nem levá-lo para a escola.
Saí da escola meio adormecida, atordoada, mas liberta tbm.
Saí da escola otimista comigo e com as pessoas q lá estão.
A diretora me prometeu se focar na alimentação do Artur e nos cuidados da auxiliar com Artur, afinal, ela está lá para cuidar dele, nada mais.
Falamos sobre o desfralde, fiquei sinceramente aliviada.
Saí de lá tensa, mas sem aquela imensa espada que existia sobre minha cabeça amarrada com um fio de cabelo como Dâmocles na mitologia.
No que se referia à vida escolar do meu filho eu era como Dâmocles, tinha todo o poder de um rei, todas as regalias ( escola, auxiliar, solicitações atendidas) e ao mesmo tempo, tinha uma espada amarrada com um fio de cabelo sobre nós onde qualquer movimento em falso poderia colocar tudo a perder.
 (sim eu curto mitologia)
Não saí saltitante, a sensação da espada ainda continuava lá.
Mas enquanto ia para casa, senti orgulho de mim.
Falei para mim mesma que estava satisfeita com minha coragem de enfrentar meu trauma e orgulhosa por não ter sequer chorado momento algum enquanto descrevia todas as atrocidades imundas q um "ser humano" pode ser capaz de fazer com uma criança indefesa, seja desprezando, seja excluindo, seja deixando suja ou passando fome.
Mas, como não sou de ferro, chorei no caminho, pq isso ainda me dói.
E vai doer por toda eternidade.
E eu vou chorar, chorar um choro doloroso pq sei q nunca choro sozinha.
Milhares de mães de autistas ou qualquer outro filho com necessidades especiais choram comigo, todos os dias, por esses e tantos outros motivos.
E juntas caminhamos, secamos as lágrimas, nos descabelamos um pouco, nos perdemos tbm, mas NUNCA, nunquinha desistimos de vez, só por alguns momentos e mto às vezes.

E que seja assim, que venha 2013 de vez!!!


P.S. vi uma mochila numa loja hj. Do tema que Artur ama. Um preço até q razoável, mas eu não podia cometer esse excesso no momento, afinal, não era baratinha tbm. Ela toca música. Acho que a gente merecia comprá-la para comemorar o fato da mamãe conseguir olhar uma mochila de uma criança 'normal' para alguém q não conseguiu ainda ser aceito nesse mundo tão 'exclusivo'.

quem sabe a mamãe não tira o escorpião do bolso e dá para o pequenino uma mochila fofa e nova?

Beijos




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