O que importa?


Hoje aconteceu algo tão comum, tão rotineiro para todos nós, mas me deixou muito confusa.
Saí do trabalho e fui para o ponto de ônibus como sempre.
Lá tinha um senhor, próximo dos 50 anos, talvez.
Tinha uma sacola e esperava um ônibus também. Estava sujo, maltratado, grandes indícios de ser um morador de rua.
Quando um ônibus parou ele foi até o motorista e conversou algo com ele, não ouvi.
Tentei não olhar como todo mundo, mas nem deu.
Peguei meu livro, abri e tentei ler.
Ele voltou e o ônibus foi. Tinha um papel parecido com o um ticket na mão, mas diferente de todos os vales-transporte que conheço em minha cidade.
Notei ele sem jeito, começou a fazer comentários sobre a conversa com o motorista buscando ser ouvido por alguém, mas  todos foram lentamente caminhando para longe e eu estava bem ao lado de sua sacola.
Não consegui sair, sei lá porque. Não me senti intimidada. Continuei tentando ler meu livro empacado comigo há meses.
Mas, ele queria papo e então me chamou:
 - Senhora? 
Tentei disfarçar, mas não consigo, né? Olhei para ele:
- Senhora, tentei pegar o ônibus, mas esse ticket só vale R$ 1,20 aqui a condução é R$ 2,70. Pedi ao motorista para me ajudar, ele disse que não pode, tem câmeras nos ônibus, paciência, né? Ele tá trabalhando, eu não.
Concordei apenas com o olhar e ele continuou:
- Eu moro na rua, sabe como é. Não vou ter dinheiro mesmo.
E enquanto dizia isso, chorou. Sem manipulação, só notei a voz embargada e ele sem me olhar secando as lágrimas disfarçadamente. Consenti novamente com os olhos e ele parou de falar.
Nesse momento, minha mente que anda colossal, um tumulto na verdade, começou a funcionar mais ainda e como sempre, sei lá quem mora dentro de mim começou a me fazer mil perguntas:
Por que não ajudar?
Ah, porque ele está assim porque quer. As pessoas escolhem morar nas ruas.
Cada um é responsável pelo resultado de suas escolhas.
Ah, mas quem somos nós para falar das escolhas deles?
Ninguém.
Mas é final de mês, tô com pouca grana, po!!
Ah, me poupe Roberta, o que serão moedas para você?
Você trabalha, tem uma família, está triste, cansada, desanimada, mas vai chegar em casa ganhar beijos, carinhos, afagos, hoje é sexta-feira, vai ter reunião de família, lanche gostoso, conversa gostosa, risos...
Mas se eu der dinheiro, ele vai beber, usar drogas.
Roberta, você sabe, a sua parte termina com a doação, o que a pessoa que recebeu vai fazer com isso, é por conta dela.
Mas eu vou alimentar o vício e não estimular ele a mudar de vida?
Pessoas não mudam de vida por moedas.
Então, o que é certo afinal?????
Fazer o que seu coração sente que deve fazer. Pensar que julgar porque ele está ali, sem ninguém, sem dinheiro, sem comida, sem nada vai mudar sua vida? Nem a dele, pelo menos não hoje.

Depois dessa 3ª Guerra Mundial dentro de mim, peguei moedas em minha carteira e dei pra ele.
Ele chorou, me agradeceu alto querendo mostras às pessoas presentes que alguém o entende. Odiei ele por isso.
E ele chorando me disse:
- Não dá para pedir comida, fui num restaurante para pedir restos, o dono me escorraçou de lá ao chutes. As pessoas maltratam as outras sem saber o dia de amanhã. Ele não pode fazer isso comigo porque tem dinheiro, isso é hoje, amanhã, ele pode ser como eu. Ninguém sabe porque estou aqui e nem perguntou também. Obrigada!! Que sua família lhe receba muito bem, dona, você merece!!!

Pode parecer besteira, mas isso me deixou confusa, perdida e triste também.
Não é aquela hipocrisia de "me importo com a miséria humana e você não, mereço um troféu?"
Foi dor, a dor que sinto de ver pessoas tristes, de ver crianças apanhar, serem abusadas, estupradas, de ver gente doente, de entender e não aceitar que a vida é triste.
Ele não deve ter escolhido ser morador de rua, ele deve ter feito escolhas erradas para terminar assim.
Eu não escolhi ter a vida que eu tenho, os problemas que tenho, mas eu tenho.
Eu não escolhi ter um filho especial, me privar, me preocupar com tantas coisas, mas eu sempre espero e luto para que o mundo me entenda e para mim, deixar aquele senhor falando sozinho e sem dinheiro foi como estar chorando a minha dor no mundo e não ver ninguém se importar.
Não estou pobre, estou sem moedas, ele ficou com o nada dele e eu já não me pergunto mais porque dar ou não dar....

Amar não é sentir a dor do outro, amar é respeitar a dor do outro.


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